sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Criminalidade ditando as regras.

Há alguns dias vi em um noticiário uma matéria que mostrava algumas peças de roupa, mochilas e bolsas feitas com itens e características que uniam a moda e o bom gosto à segurança. Depois que a assisti , fiquei pensando sobre o assunto e então decidi comentar aqui o que achei de seu conteúdo.

A reportagem mostrou algumas mochilas que não tinham simples fechos, mas cadeados com senhas, para dificultar bem qualquer tentativa de furto; calças com os bolsos mais fundos, para ficar mais fácil de perceber qualquer tentativa de acesso alheio a alguma coisa (como uma carteira ou celular) que esteja dentro deles; e bolsas com alças mais curtas e mais fechos, com os mesmos objetivos de complicar a ação dos gatunos por aí. De fato, as dicas que foram apresentadas na matéria pareceram ser bem eficazes na proteção dos nossos objetos pessoais. Contudo, vamos analisar sob outro ponto-de-vista o que representa essa matéria.

Deixando a eficácia e a objetivação de lado, é possível inferir a partir desta reportagem que cada vez mais é a criminalidade que dita as regras de como nós devemos nos portar nas ruas da cidade. Tais dicas como estas e outras que nós aprendemos no dia-a-dia, como evitar o uso do celular no meio da rua, evitar usar relógios muito bonitos e que pareçam caros, evitar usar tênis originais de alto valor, só fazem com que nós vivemos aos moldes do que o crime impõe à sociedade. Nosso modo de vida nas ruas é ditado pelo modo de como os crimes são cometidos. Se os bandidos estão agindo de determinada maneira, lá vamos nós nos adaptar de um jeito a fim de nos proteger (jeito, este, cada vez mais restrito, diga-se de passagem). Para dar um exemplo que reforce a ideia, imaginemos que algum conhecido seu disse que foi assaltado na rua e conta como foi. Na descrição do ocorrido, ele diz que estava usando um tênis caro e falando ao celular no centro da cidade, por volta do final da tarde. A reação da maioria seria dizer ao conhecido: “Ah, mas você também pediu pra ser assaltado, não é? Sabe que não pode usar esse tipo de tênis e ficar vacilando com o celular!”. Ou seja, ao invés de nos indignarmos com a violência e os bandidos, nós criticamos a vítima, como se ela fosse a culpada de ter sido assaltada, quando na verdade, o criminoso é quem é o errado, o bandido. Mas isso só mostra o quanto estamos acostumados a viver sob os moldes da criminalidade.

Isso não é justo. O crime é que deveria se adaptar a sociedade e não o contrário. Isto é, a sociedade deve exercer seu direito de ir e vir, livremente, podendo usar o que der na telha, sem ficar se moldando as ações de bandidos. É claro que isso é uma utopia, falando assim tão naturalmente. Mas há de se convir que tem alguma coisa errada. É como na música da banda O Rappa, na qual diz: “as grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você quem tá nessa prisão”. E trazem mesmo. Não só as grades do condomínio, mas todo o nosso modo de vida, com medo, cheio de adaptações e restrições.

Enfim, isso é uma questão a se pensar. É óbvio que nós temos que viver com cautela, sempre prezando a segurança, até porque uma cidade grande como São Paulo, onde as pessoas podem viver livre e tranquilamente é utopia mesmo. Mas temos que tomar cuidado para que não haja uma total inversão de valores. O crime está errado. Os criminosos é que deveriam viver sob restrições e medo e não nós. Vamos começar a pensar sobre isso, pensar a quem cobrar, pensar em como agir pra melhorar. Podemos começar votando melhor, mais conscientemente. Isso já ajuda.

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